Imagine: Quando Sonhar Com Um Mundo Melhor Também É Um Ato De Humanidade
Uma reflexão psicológica, filosófica e psicanalítica sobre a canção de John Lennon
MÚSICAS INTERNACIONAIS
Fátima Cristina Ferreira Lobo
9/28/20268 min read


Existem músicas que ouvimos. Existem músicas que sentimos. E existem aquelas que, mesmo depois de terminarem, continuam fazendo perguntas dentro de nós.
Para mim, “Imagine”, de John Lennon, pertence a essa última categoria.
Não considero Imagine apenas uma canção sobre paz. Vejo nela um convite para olharmos para aquilo que construímos como humanidade e nos perguntarmos: precisamos realmente viver tão divididos?
Dividimo-nos por países, crenças, classes sociais, ideologias, culturas, posses e inúmeras outras categorias. Algumas dessas diferenças fazem parte da riqueza da experiência humana. O problema começa quando deixamos de enxergar a pessoa que existe por trás delas.
Quando o outro deixa de ser simplesmente alguém diferente e passa a ser alguém que precisa ser combatido.
É nesse ponto que Imagine me toca profundamente.
John Lennon não começa apresentando uma fórmula. Ele nos pede algo aparentemente simples: imagine.
E talvez imaginar seja muito mais poderoso do que parece.
IMAGINAR É ULTRAPASSAR, POR UM INSTANTE, OS LIMITES DA REALIDADE
Do ponto de vista psicológico, a capacidade de imaginar permite que o ser humano ultrapasse mentalmente aquilo que existe no presente.
Antes de transformarmos alguma coisa, precisamos ser capazes de conceber que ela poderia ser diferente.
Uma pessoa que nunca consegue imaginar outra possibilidade pode acabar acreditando que sua realidade atual é a única realidade possível.
Isso vale para nossa vida pessoal, mas também para a sociedade.
Durante a história, muitas coisas que hoje consideramos direitos básicos já foram vistas como impossíveis ou absurdas.
Por isso, quando Lennon nos convida a imaginar outro mundo, não precisamos interpretar sua proposta como uma descrição literal de uma sociedade perfeita.
Podemos entendê-la como uma provocação:
E se as coisas não precisassem ser exatamente como são?
POR QUE PRECISAMOS TANTO DO “NÓS” E DO “ELES”?
A Psicologia Social nos ajuda a compreender uma das questões centrais da música.
O ser humano possui uma necessidade profunda de pertencimento.
Precisamos sentir que fazemos parte de alguma coisa.
Família, religião, nacionalidade, profissão, cultura, grupos de amizade e inúmeras outras referências ajudam a formar nossa identidade.
Henri Tajfel e John Turner, ao desenvolverem a Teoria da Identidade Social, demonstraram como nossa percepção de nós mesmos também é construída por meio dos grupos aos quais pertencemos.
Pertencer não é necessariamente um problema.
Ao contrário: pertencer pode oferecer segurança, significado e identidade.
O problema aparece quando, para fortalecer o “nós”, precisamos diminuir o “eles”.
É quando a diferença deixa de ser apenas diferença e passa a significar inferioridade.
E quantos conflitos humanos não começaram exatamente assim?
Criamos fronteiras físicas, mas também construímos fronteiras psicológicas.
Existem muros que não aparecem nos mapas.
São os muros do preconceito.
Da intolerância.
Da arrogância.
Da incapacidade de reconhecer humanidade naquele que pensa, vive ou acredita de maneira diferente de nós.
Por isso, talvez uma das perguntas mais bonitas que Imagine desperte seja:
será que conseguimos pertencer sem excluir?
CARL ROGERS E A CORAGEM DE ENXERGAR O OUTRO
Quando penso nessa questão, lembro-me de Carl Rogers.
A Psicologia Humanista de Rogers atribui enorme importância à empatia, à autenticidade e à aceitação.
Empatia não significa concordar com tudo aquilo que o outro pensa.
Significa tentar compreender sua experiência sem reduzi-lo imediatamente aos nossos próprios julgamentos.
Parece simples.
Mas não é.
É muito mais fácil ouvir alguém procurando argumentos para responder do que ouvi-lo tentando realmente compreender.
É mais fácil colocar rótulos.
“Ele é isso.”
“Ela é aquilo.”
“Esse grupo é assim.”
Os rótulos economizam o esforço de conhecer pessoas.
E talvez justamente por isso sejam tão perigosos.
Quando transformamos uma pessoa apenas em uma categoria, deixamos de enxergar sua complexidade.
Antes de sermos brasileiros, americanos, europeus, cristãos, ateus, ricos, pobres, conservadores, progressistas ou membros de qualquer outra categoria, existe algo ainda mais básico:
somos seres humanos.
Sentimos medo.
Precisamos de afeto.
Experimentamos perdas.
Criamos vínculos.
Tememos a rejeição.
Desejamos pertencimento.
Envelhecemos.
Sofremos.
Amamos.
E um dia morreremos.
Talvez Lennon esteja tentando nos conduzir justamente para esse território comum.
FREUD NOS LEMBRA DE ALGO INCÔMODO
Mas existe uma questão que não podemos ignorar.
Seria realmente suficiente retirar aquilo que divide os seres humanos para eliminar os conflitos?
Sigmund Freud provavelmente responderia que não.
E é aqui que, para mim, a análise de Imagine se torna ainda mais interessante.
Em O mal-estar na civilização, Freud apresenta uma visão menos idealizada da natureza humana. A agressividade não estaria apenas nas estruturas sociais; ela também faria parte da constituição psíquica humana.
Essa ideia provoca uma pergunta desconfortável:
e se o problema não estiver apenas nas fronteiras que construímos no mundo, mas também nas fronteiras que carregamos dentro de nós?
Podemos retirar uma fronteira do mapa.
Mas como retiramos o ódio?
Podemos modificar uma instituição.
Mas como eliminamos a necessidade humana de encontrar inimigos?
Podemos mudar leis.
Mas como enfrentamos ressentimentos, invejas, rivalidades e desejos de dominação?
Talvez essa seja uma das grandes contribuições da Psicanálise para a leitura da música.
A paz exterior também exige algum enfrentamento de nossos conflitos interiores.
A SOMBRA EXISTE EM TODOS NÓS
Gostamos de imaginar que a violência pertence sempre ao outro.
O intolerante é o outro.
O preconceituoso é o outro.
O agressivo é o outro.
Nós estaríamos sempre do lado correto.
Mas conhecer profundamente a própria mente significa também reconhecer aquilo que preferiríamos não encontrar dentro de nós.
Todos possuímos contradições.
Podemos amar e sentir raiva.
Podemos cuidar e ferir.
Podemos desejar proximidade e, simultaneamente, afastar alguém.
Podemos defender tolerância e sermos intolerantes quando encontramos uma opinião que nos incomoda.
Reconhecer isso não diminui o ser humano.
Torna-nos mais conscientes de nossa complexidade.
Talvez a construção da paz comece justamente quando deixamos de acreditar que todo o mal está exclusivamente fora de nós.
FREUD, EINSTEIN E UMA PERGUNTA QUE A HUMANIDADE AINDA NÃO RESPONDEU
Em 1932, Albert Einstein e Sigmund Freud participaram de uma correspondência que posteriormente ficou conhecida como “Por que a guerra?”
A pergunta continua assustadoramente atual.
Por que uma espécie capaz de produzir ciência, arte, literatura, música e extraordinários avanços tecnológicos continua sendo capaz de destruir outros seres humanos?
Freud não oferece uma resposta confortável.
Mas também não afirma que devemos simplesmente aceitar a violência como destino inevitável.
Os vínculos afetivos e os processos de identificação entre os seres humanos podem atuar contra as forças destrutivas.
E encontro aqui uma aproximação muito bonita com Imagine.
Quanto mais conseguimos enxergar o outro como parte da mesma humanidade, mais difícil se torna transformá-lo apenas em inimigo.
ERICH FROMM: TER OU SER?
Outra passagem da música que considero filosoficamente profunda é sua reflexão sobre a posse.
Erich Fromm diferenciou duas maneiras de orientar a existência: o ter e o ser.
Quando nossa identidade depende excessivamente daquilo que possuímos, podemos passar a medir nosso valor pelo acúmulo.
Ter mais.
Comprar mais.
Mostrar mais.
Conquistar mais.
Parecer mais.
E, paradoxalmente, podemos acabar nos sentindo cada vez menos.
Essa reflexão parece ainda mais atual em uma sociedade marcada pelas redes sociais e pela constante comparação.
Quantas vezes confundimos sucesso com aparência de sucesso?
Quantas vezes confundimos felicidade com demonstração pública de felicidade?
Quantas vezes aquilo que possuímos deixa de nos servir e começa a nos definir?
Podemos possuir muitas coisas e ainda sentir um enorme vazio.
Porque nenhuma quantidade de objetos substitui pertencimento, significado, afeto e vínculos humanos verdadeiros.
Talvez uma pergunta essencial seja:
o que realmente precisamos possuir para sermos felizes?
KANT E A PAZ QUE PRECISA SER CONSTRUÍDA
Immanuel Kant também pensou profundamente sobre a possibilidade da paz.
Em À paz perpétua, ele não trata a paz simplesmente como um sentimento bonito ou uma esperança abstrata. Ela precisa de condições políticas, jurídicas e institucionais que a sustentem.
Isso acrescenta algo fundamental à mensagem de Imagine.
Sonhar é importante.
Mas não basta.
A paz precisa ser construída.
Precisa de educação.
Precisa de justiça.
Precisa de diálogo.
Precisa de direitos.
Precisa de responsabilidade.
Precisa de pessoas capazes de reconhecer que liberdade não significa poder fazer qualquer coisa com o outro.
Um mundo melhor não nasce apenas de boas intenções.
Nasce também de ações.

IMAGINAR UM MUNDO SEM DIFERENÇAS? NÃO. UM MUNDO CAPAZ DE CONVIVER COM ELAS
Para mim, Imagine não precisa ser interpretada como um desejo de apagar culturas, crenças ou identidades.
Não gostaria de viver em um mundo no qual todos pensassem exatamente da mesma maneira.
A diversidade humana também é beleza.
O verdadeiro desafio está em aprender a conviver com ela.
Não precisamos pensar igual para respeitar.
Não precisamos acreditar nas mesmas coisas para reconhecer dignidade.
Não precisamos viver da mesma maneira para compreender que o outro possui direito de existir.
Talvez a paz não seja ausência de diferenças.
Talvez paz seja a capacidade de conviver com diferenças sem transformá-las em motivo para destruir alguém.
A PAZ QUE PROCURAMOS NO MUNDO TAMBÉM PRECISA EXISTIR DENTRO DE NÓS
Essa é provavelmente a parte de Imagine que mais me leva a refletir.
Falamos muito sobre mudar o mundo.
Mas pouco sobre aquilo que precisamos transformar dentro de nós.
Queremos pessoas mais compreensivas, mas precisamos aprender a compreender.
Queremos menos julgamentos, mas julgamos.
Queremos mais empatia, mas às vezes nos recusamos a ouvir.
Queremos paz, mas podemos carregar guerras silenciosas dentro de nós.
Talvez transformar o mundo e transformar a nós mesmos não sejam processos completamente separados.
Cada vez que escolhemos ouvir antes de condenar, alguma coisa muda.
Cada vez que recusamos um preconceito, alguma coisa muda.
Cada vez que enxergamos uma pessoa onde antes enxergávamos apenas um rótulo, alguma coisa muda.
Pode parecer pouco.
Mas sociedades são formadas por pessoas.
POR QUE “IMAGINE” CONTINUA NECESSÁRIA
Mais de meio século depois de seu lançamento, a humanidade continua enfrentando guerras, intolerância, desigualdade, preconceito e violência.
Poderíamos concluir que o sonho de Lennon fracassou.
Eu prefiro fazer outra pergunta:
e se justamente a permanência desses problemas demonstrar por que ainda precisamos imaginar?
Não porque imaginar seja suficiente.
Mas porque desistir de imaginar uma realidade diferente significa aceitar que nenhuma transformação é possível.
Imagine não nos entrega respostas prontas.
Ela nos entrega uma possibilidade.
E talvez seja por isso que continue atravessando gerações.
John Lennon nos pede que imaginemos um mundo diferente.
Freud nos lembra que também precisamos compreender aquilo que existe dentro de nós.
Rogers nos mostra a importância da empatia.
Fromm nos convida a refletir sobre aquilo que realmente importa em nossa existência.
Kant nos lembra que a paz precisa ser construída.
E a Psicologia Social demonstra o quanto precisamos aprender a pertencer sem transformar quem está fora do nosso grupo em inimigo.
No final, talvez a maior mensagem que eu encontre em Imagine seja profundamente simples:
nenhuma fronteira deveria ser maior do que nossa capacidade de reconhecer a humanidade do outro.
Talvez nunca consigamos construir o mundo perfeito imaginado em uma canção.
Mas podemos construir relações um pouco mais humanas.
Podemos diminuir preconceitos.
Podemos aprender a ouvir.
Podemos questionar nossas certezas.
Podemos reconhecer nossas próprias contradições.
Podemos escolher não transformar diferenças em ódio.
E, principalmente, podemos continuar imaginando.
Porque enquanto formos capazes de imaginar uma humanidade melhor, ainda estaremos reconhecendo que aquilo que existe hoje não precisa necessariamente ser aquilo que existirá amanhã.
Imaginar não é fechar os olhos para a realidade.
Às vezes, é justamente abrir os olhos para aquilo que a realidade ainda poderia se tornar.
Referências
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Por que a guerra? In: FREUD, Sigmund. Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes.
FROMM, Erich. Ter ou ser?. Rio de Janeiro: LTC.
KANT, Immanuel. À paz perpétua. Porto Alegre: L&PM.
LENNON, John. Imagine. In: Imagine. Reino Unido: Apple Records, 1971.
MASLOW, Abraham H. Motivation and personality. New York: Harper & Row.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Martins Fontes.
TAJFEL, Henri; TURNER, John C. An integrative theory of intergroup conflict. In: AUSTIN, William G.; WORCHEL, Stephen (org.). The social psychology of intergroup relations. Monterey: Brooks/Cole, 1979.
LINK PARA TRADUÇÃO DA MÚSICA:
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