“O Que É, O Que É?”: Uma Análise Psicológica, Filosófica E Psicanalítica Da Canção De Gonzaguinha
O presente artigo propõe uma análise psicológica, filosófica e psicanalítica da canção “O Que É, O Que É?”, composta e interpretada por Gonzaguinha e lançada, em 1982, no álbum Caminhos do Coração. A obra apresenta uma reflexão sobre a existência, a felicidade, o sofrimento, a esperança, a temporalidade e a busca humana por sentido. A análise fundamenta-se em contribuições da Psicologia Histórico-Cultural, da Psicologia Humanista, da Logoterapia, da Psicanálise freudiana e winnicottiana e das filosofias existencialista e vitalista.
MPB
Fátima Cristina Ferreira Lobo
7/27/202621 min read


Resumo
O presente artigo propõe uma análise psicológica, filosófica e psicanalítica da canção “O Que É, O Que É?”, composta e interpretada por Gonzaguinha e lançada, em 1982, no álbum Caminhos do Coração. A obra apresenta uma reflexão sobre a existência, a felicidade, o sofrimento, a esperança, a temporalidade e a busca humana por sentido. A análise fundamenta-se em contribuições da Psicologia Histórico-Cultural, da Psicologia Humanista, da Logoterapia, da Psicanálise freudiana e winnicottiana e das filosofias existencialista e vitalista. Argumenta-se que a canção não expressa um otimismo ingênuo, pois reconhece as contradições, as perdas e as limitações da experiência humana. Entretanto, diante da impermanência e do sofrimento, o eu lírico escolhe afirmar a vida como possibilidade, movimento e construção coletiva. Na perspectiva psicológica, a composição favorece a elaboração afetiva e a produção de sentidos. Sob a ótica psicanalítica, evidencia-se a atuação de Eros, da sublimação artística, do desejo, da falta e da recuperação simbólica da espontaneidade infantil. Filosoficamente, a canção dialoga com o pensamento de Friedrich Nietzsche, Viktor Frankl, Jean-Paul Sartre, Martin Heidegger e Baruch de Espinosa, especialmente em relação à afirmação da existência, à liberdade, à responsabilidade e à potência de agir. Conclui-se que a obra permanece atual por transformar uma pergunta aparentemente simples em uma investigação profunda sobre o que significa viver.
Palavras-chave: Gonzaguinha; música popular brasileira; Psicologia; Psicanálise; Filosofia; sentido da vida.
1 Introdução
A música popular pode ser compreendida como uma forma de expressão artística, cultural e histórica por meio da qual indivíduos e grupos elaboram afetos, conflitos, valores, desejos e experiências sociais. Uma canção não se restringe ao entretenimento: ela organiza sons, palavras, memórias e emoções, produzindo significados que ultrapassam as intenções conscientes de seu autor.
Na perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural, os sentidos atribuídos à música são construídos na relação entre a obra, a subjetividade dos ouvintes e o contexto sociocultural no qual ocorre a experiência musical. A música funciona, assim, como expressão do pensamento afetivo e como produção simbólica capaz de reorganizar emoções e experiências humanas.
A canção “O Que É, O Que É?” integra o álbum Caminhos do Coração, lançado em 1982. A composição ocupa a primeira faixa do disco e tornou-se uma das obras mais conhecidas de Gonzaguinha. Sua popularidade relaciona-se tanto à construção melódica e rítmica quanto à universalidade da pergunta que orienta a letra: afinal, o que é a vida?
A interrogação apresentada pelo compositor não recebe uma resposta conceitual, definitiva ou fechada. A vida é descrita por diferentes vozes, perspectivas e contradições. Para alguns, ela representa sofrimento; para outros, sonho, luta, prazer ou destino. Em vez de eliminar essa pluralidade, a canção acolhe as diferentes interpretações e termina por assumir uma posição afirmativa diante da existência.
O objetivo deste artigo é analisar a canção a partir de três campos teóricos complementares: a Psicologia, a Filosofia e a Psicanálise. Não se pretende estabelecer uma interpretação única ou afirmar que Gonzaguinha tenha composto conscientemente com base nos autores mencionados. Busca-se construir uma leitura interdisciplinar, considerando a obra como objeto cultural aberto à produção de sentidos.
2 A música como expressão da subjetividade
A experiência musical envolve processos cognitivos, afetivos, corporais, sociais e simbólicos. Ao ouvir uma música, o sujeito não recebe passivamente uma mensagem pronta. Ele relaciona a obra às próprias lembranças, expectativas, perdas, vínculos e experiências.
Maheirie (2003) compreende a música como uma forma de expressão do pensamento afetivo. Por meio dela, emoções inicialmente difusas podem adquirir forma simbólica, tornando-se comunicáveis e compartilháveis. A música oferece palavras e ritmos para sentimentos que, muitas vezes, o indivíduo não consegue explicar por meio do discurso cotidiano.
Wazlawick, Camargo e Maheirie (2007) observam que os significados musicais são produzidos social e historicamente, enquanto os sentidos assumem uma dimensão mais singular, vinculada à experiência concreta de cada sujeito. Dessa forma, uma mesma canção pode representar celebração para uma pessoa, resistência para outra e elaboração de perdas para uma terceira.
Em “O Que É, O Que É?”, a construção coletiva da pergunta é particularmente significativa. O eu lírico consulta diferentes pessoas, ouve respostas variadas e reconhece que nenhuma definição isolada consegue esgotar o fenômeno da vida. Essa multiplicidade reproduz a própria diversidade da experiência humana.
A canção pode ser entendida como um espaço de mediação entre o individual e o coletivo. A pergunta é pessoal, mas também pertence a toda a humanidade. A resposta emerge de crianças, adultos, crenças populares, experiências de sofrimento e manifestações de esperança. A existência é apresentada como experiência singular e, ao mesmo tempo, compartilhada.
3 Análise psicológica
3.1 A busca humana por sentido
Uma das principais dimensões psicológicas da canção está na procura por um significado capaz de sustentar a existência. A pergunta sobre o que é a vida não constitui mera curiosidade intelectual. Ela expressa uma necessidade humana de compreender a própria trajetória, organizar experiências e encontrar motivos para continuar.
Essa questão aproxima-se da Logoterapia de Viktor Frankl. Para o autor, a busca de sentido constitui uma motivação fundamental do ser humano. O sentido não é necessariamente encontrado em condições ideais; ele pode ser construído por meio da criação, dos vínculos amorosos e da atitude adotada diante de sofrimentos que não podem ser evitados.
A canção reconhece que a vida contém sofrimento, decepção, finitude e incerteza. No entanto, essas condições não são apresentadas como argumentos suficientes para abandonar a existência. A afirmação da beleza da vida ocorre apesar das dificuldades, e não por desconhecimento delas.
Essa diferença é essencial. O otimismo ingênuo nega ou minimiza a dor. A esperança madura, ao contrário, reconhece as adversidades e, ainda assim, conserva a possibilidade de futuro. Quando a música declara que a vida deveria ser melhor e projeta que poderá tornar-se melhor, estabelece uma tensão entre realidade e possibilidade.
A esperança apresentada na composição não é apenas expectativa passiva. Ela possui caráter projetivo: o futuro permanece aberto à ação humana. A vida pode melhorar porque os indivíduos podem criar, amar, resistir, transformar relações e modificar certas condições sociais.
3.2 Felicidade e permissão para viver
A conhecida defesa de viver sem vergonha de ser feliz pode ser interpretada psicologicamente como um questionamento das proibições internas e sociais que impedem a experiência de prazer.
Em determinadas estruturas familiares, religiosas ou culturais, a felicidade pode ser acompanhada de culpa. Algumas pessoas aprendem que descansar é improdutivo, que sentir prazer é egoísmo ou que demonstrar alegria diante do sofrimento alheio representa insensibilidade. A canção confronta essas interdições ao defender a legitimidade da felicidade.
Entretanto, a felicidade não aparece como obrigação permanente. A composição não afirma que o indivíduo deva estar alegre durante todo o tempo. Tal exigência produziria uma forma de violência psicológica semelhante ao imperativo contemporâneo de positividade.
Ser feliz, no contexto da obra, significa permitir-se experimentar vitalidade, desejo, canto, encontro e esperança. A felicidade é compreendida como possibilidade existencial, não como estado emocional contínuo.
Esse aspecto aproxima-se da Psicologia Humanista de Carl Rogers. Para Rogers, uma vida plena não corresponde a uma condição fixa de satisfação, mas a um processo de abertura à experiência. O indivíduo psicologicamente saudável não elimina emoções desagradáveis; ele torna-se capaz de reconhecer sentimentos, integrar experiências e viver de maneira mais congruente.
A canção apresenta justamente uma existência em movimento. A vida não é definida como objeto acabado, mas como processo, transformação e aprendizagem.
3.3 Resiliência e enfrentamento do sofrimento
A obra também pode ser examinada a partir do conceito de resiliência. Em Psicologia, resiliência não significa invulnerabilidade, ausência de sofrimento ou capacidade ilimitada de suportar abusos. Trata-se de um processo dinâmico de adaptação, reconstrução e atribuição de sentido diante das adversidades.
O eu lírico conhece as interpretações pessimistas da vida. Ele sabe que há quem a compreenda como sofrimento, ilusão ou proximidade da morte. Contudo, não permanece aprisionado a essas definições.
A posição final da canção representa uma escolha interpretativa. Entre diversas narrativas possíveis, o sujeito adere àquela que preserva sua ligação com a vida. Isso não apaga a dor, mas impede que o sofrimento seja transformado na única verdade sobre a existência.
A música, nesse sentido, pode funcionar como recurso simbólico de enfrentamento. Estudos sobre experiências musicais indicam que a música pode favorecer a expressão de sentimentos, a evocação de memórias, o conforto emocional e a construção de significados, embora não substitua cuidados psicológicos ou psiquiátricos quando estes são necessários.
3.4 A infância como símbolo de espontaneidade
A valorização da resposta das crianças constitui um dos elementos centrais da composição. A criança aparece como símbolo de pureza, espontaneidade, confiança e abertura para a experiência.
Essa imagem não deve ser entendida como afirmação de que toda infância é necessariamente feliz ou livre de conflitos. A infância concreta pode envolver perdas, violência, insegurança e sofrimento. Na construção poética, entretanto, a criança representa um modo de relacionar-se com o mundo anterior ao excesso de racionalizações e defesas sociais.
O adulto frequentemente procura respostas complexas e definitivas. A criança, simbolicamente, responde a partir da experiência imediata, do corpo, da brincadeira e da imaginação. Sua resposta não resulta de um sistema filosófico, mas de uma ligação ainda viva com o desejo e com a curiosidade.
A escolha da perspectiva infantil pode ser compreendida como convite para recuperar dimensões psicológicas frequentemente reprimidas na vida adulta: criatividade, capacidade de brincar, encantamento, vulnerabilidade e abertura ao novo.
4 Análise psicanalítica
4.1 A pergunta, a falta e o desejo
Para a Psicanálise, o sujeito humano é constituído pela falta. Não existe resposta definitiva capaz de completar integralmente o indivíduo ou eliminar todas as suas inquietações. O desejo renova-se justamente porque nenhum objeto consegue satisfazê-lo de maneira absoluta.
A pergunta “o que é a vida?” pode ser interpretada como expressão dessa falta estrutural. O sujeito deseja uma definição que organize a existência, mas encontra respostas parciais, contraditórias e insuficientes.
A canção não encerra completamente a pergunta. Mesmo ao afirmar a beleza da vida, preserva o enigma. Essa ausência de conclusão definitiva é coerente com a concepção psicanalítica do sujeito, que permanece dividido e nunca alcança pleno conhecimento sobre si mesmo.
A própria estrutura interrogativa da obra produz movimento. Perguntar mantém o desejo vivo. Uma resposta absoluta poderia encerrar a procura; a canção, ao contrário, transforma a busca em parte constitutiva da experiência de viver.
4.2 Princípio do prazer e princípio da realidade
Freud distingue o princípio do prazer do princípio da realidade. O primeiro orienta o aparelho psíquico na busca de satisfação e na redução do desprazer. O segundo considera as limitações do mundo externo, adiando ou transformando determinadas formas de satisfação.
Na canção, esses dois princípios não aparecem como forças inteiramente opostas. O desejo de felicidade convive com o reconhecimento de que a realidade é imperfeita. O sujeito não se refugia em uma fantasia de mundo sem sofrimento, mas também não aceita que as limitações da realidade destruam toda possibilidade de prazer.
Essa articulação revela uma posição psíquica relativamente integrada. O eu lírico reconhece a falta sem renunciar ao desejo; reconhece a dor sem abandonar a esperança; reconhece a morte sem deixar de investir na vida.
A afirmação de que a vida deveria ser melhor demonstra a atuação do princípio da realidade. A projeção de que ela poderá melhorar preserva a energia desejante e a capacidade de transformação.
4.3 Eros e pulsão de morte
Em Além do princípio do prazer, Freud propõe uma tensão entre pulsões de vida e pulsão de morte. As pulsões de vida, reunidas sob o conceito de Eros, buscam ligações, conservação, criação e formação de unidades cada vez mais complexas. A pulsão de morte relaciona-se à tendência de redução das tensões, desligamento e retorno ao estado inorgânico.
A canção de Gonzaguinha pode ser interpretada como uma afirmação de Eros. Cantar, amar, relacionar-se, sonhar e criar são formas de ligação. A vida é celebrada porque permite encontros, experiências e produção de novos sentidos.
No entanto, a pulsão de morte não está ausente. Ela aparece nas referências à finitude, ao sofrimento e à compreensão da vida como proximidade da morte. A potência da música nasce exatamente do confronto entre essas duas tendências.
A afirmação da vida não elimina a morte. Ela ganha intensidade porque a existência é finita. O valor do instante relaciona-se ao fato de ele não ser eterno.
Na obra, Eros prevalece não como vitória definitiva, mas como trabalho contínuo de ligação. O sujeito precisa reafirmar a vida repetidamente porque o sofrimento, o desamparo e a destrutividade continuam presentes.
4.4 A música como sublimação
A sublimação é um dos conceitos mais relevantes para compreender a relação entre arte e Psicanálise. De maneira geral, refere-se à possibilidade de as pulsões encontrarem destinos social e culturalmente valorizados, como a criação artística, a investigação intelectual e outras produções simbólicas.
A produção musical pode transformar conflitos, dores, angústias e desejos em obra compartilhável. A sublimação não significa simplesmente eliminar ou esconder o sofrimento. Ela cria uma forma por meio da qual a experiência pulsional pode ser simbolizada.
Estudos psicanalíticos sobre música observam que a criação artística pode atuar como processo de transformação pulsional, permitindo que algo da ordem do conflito, da incompletude e do desejo se converta em produção cultural.
Em “O Que É, O Que É?”, a angústia provocada pelo enigma da existência transforma-se em composição, ritmo e canto coletivo. Aquilo que poderia permanecer como ansiedade individual converte-se em experiência estética compartilhada.
O ato de cantar também oferece ao sujeito uma forma de inscrição simbólica. Diante da impossibilidade de controlar o tempo, a morte ou todas as condições da vida, o indivíduo cria. A criação não resolve objetivamente os problemas da existência, mas modifica a relação subjetiva com eles.
4.5 Repetição, elaboração e reafirmação
A repetição possui papel marcante na estrutura da canção. Determinadas ideias, perguntas e afirmações retornam ao longo da composição, criando um efeito rítmico e emocional.
Na Psicanálise, a repetição pode relacionar-se à compulsão de repetição, isto é, à tendência de o sujeito atualizar experiências e conflitos que ainda não foram suficientemente elaborados. Contudo, a repetição artística também pode adquirir função transformadora.
Ao repetir a afirmação da beleza da vida, a canção não apenas transmite uma informação. Ela realiza um trabalho psíquico de sustentação. A vida precisa ser reafirmada porque sua beleza não é evidente em todos os momentos.
Cada repetição pode ser compreendida como tentativa de inscrever simbolicamente uma posição subjetiva. O sujeito não diz uma única vez que escolhe viver; ele necessita renovar essa escolha.
4.6 Winnicott, criatividade e verdadeiro self
Donald Winnicott atribui grande importância à criatividade, ao brincar e à espontaneidade. Para o autor, viver criativamente não significa necessariamente produzir obras artísticas, mas perceber a existência como experiência pessoal e significativa.
O brincar ocorre em um espaço potencial situado entre a realidade interna e o mundo externo. Nesse campo, o sujeito experimenta, cria símbolos, estabelece vínculos e desenvolve a capacidade de sentir que a vida lhe pertence.
A referência às crianças aproxima a música da teoria winnicottiana. A criança simboliza a possibilidade de relacionar-se criativamente com a realidade. Sua resposta não é apenas racional; envolve imaginação, corpo, emoção e brincadeira.
O adulto excessivamente adaptado pode desenvolver um modo de existência marcado pelo falso self, organizando-se predominantemente em função das expectativas externas. A recuperação da espontaneidade infantil representaria, simbolicamente, uma aproximação do verdadeiro self.
Ao escolher a perspectiva das crianças, o eu lírico recusa uma existência inteiramente submetida ao cinismo, ao conformismo e às definições prontas. A vida recupera sua dimensão de surpresa e descoberta.
5 Análise filosófica
5.1 A existência como pergunta
A Filosofia nasce, em grande medida, do espanto e da interrogação. Perguntar o que é a vida significa reconhecer que a existência não é completamente transparente para o ser humano.
A canção não oferece uma definição metafísica única. Em vez disso, reúne diferentes interpretações. A vida é entendida como força, sofrimento, sonho, luta, prazer, movimento e proximidade da morte.
Essa pluralidade aproxima a obra do pensamento existencialista. Para o existencialismo, o ser humano não recebe previamente uma essência completamente determinada. Ele constrói a si mesmo por meio de escolhas, projetos e relações.
A vida não possui apenas um significado abstrato e universal; ela adquire sentido na forma como cada pessoa assume sua existência.
5.2 Sartre: liberdade e responsabilidade
Jean-Paul Sartre afirma que a existência precede a essência. O ser humano primeiro existe e, posteriormente, define-se por meio de suas escolhas. Não existe uma natureza pronta que determine totalmente aquilo que cada pessoa será.
A canção expressa essa abertura quando reconhece diversas interpretações possíveis da vida. O sujeito não controla todas as circunstâncias, mas participa da construção do significado que atribui a elas.
Escolher uma perspectiva afirmativa não significa possuir liberdade absoluta. Fatores sociais, econômicos, históricos, familiares e psíquicos condicionam a existência. Ainda assim, o sujeito conserva algum grau de responsabilidade diante da maneira como responde às condições encontradas.
A afirmação da vida pode ser entendida como ato de liberdade. O eu lírico escuta definições pessimistas, mas não é obrigado a adotá-las como verdade final. Ele escolhe uma posição, sabendo que essa escolha deverá ser renovada na prática.
5.3 Heidegger: temporalidade e ser-para-a-morte
Martin Heidegger compreende o ser humano como um ser lançado no mundo, situado em determinada época, cultura e conjunto de relações. A existência humana também é temporal: o indivíduo interpreta o presente a partir do passado e projeta possibilidades futuras.
A consciência da morte ocupa lugar fundamental nessa filosofia. O ser humano é um ser-para-a-morte, não porque deva viver obcecado pelo fim, mas porque a finitude constitui sua existência.
A canção incorpora essa dimensão ao apresentar a morte como uma das interpretações possíveis da vida. Vida e morte não aparecem como conceitos totalmente separados. A consciência da finitude participa da valorização da existência.
Se a vida fosse ilimitada, cada decisão poderia ser indefinidamente adiada. A finitude atribui peso às escolhas, aos vínculos e aos projetos.
A projeção de que a vida poderá ser melhor revela a estrutura temporal da esperança. O sujeito não está restrito ao presente; ele antecipa possibilidades. Entretanto, o futuro não é garantido. Ele permanece como abertura e responsabilidade.
5.4 Nietzsche e a afirmação da vida
A filosofia de Friedrich Nietzsche oferece uma importante chave interpretativa para a canção. Nietzsche critica sistemas morais e metafísicos que desvalorizam o corpo, os afetos e a vida concreta em nome de um mundo ideal.
A afirmação nietzschiana da vida não consiste em acreditar que tudo é agradável ou justo. Pelo contrário, afirmar a vida exige honestidade diante de sua dimensão trágica. A vida inclui dor, perda, contradição e acaso. Uma afirmação baseada na negação desses aspectos seria apenas autoengano.
O conceito de amor fati, ou amor ao destino, expressa a disposição de não apenas suportar a própria existência, mas assumir a totalidade da vida, inclusive aquilo que não foi escolhido.
A canção de Gonzaguinha aproxima-se dessa atitude quando afirma a beleza da vida sem ocultar suas dificuldades. A vida não é bela porque esteja livre do sofrimento, mas porque permanece potência, criação, encontro e devir mesmo diante dele.
A composição possui também uma dimensão dionisíaca. O canto, o ritmo, o corpo e a celebração coletiva participam da afirmação da existência. Em vez de buscar uma resposta puramente racional, a música responde à pergunta sobre a vida por meio da própria experiência vital de cantar.
5.5 Espinosa: alegria e potência de agir
Na filosofia de Baruch de Espinosa, os afetos podem aumentar ou diminuir a potência de agir do indivíduo. A alegria corresponde à passagem para uma maior perfeição ou potência, enquanto a tristeza representa uma diminuição dessa capacidade.
A alegria espinosana não se reduz a uma emoção superficial. Ela está relacionada ao aumento da capacidade de existir, compreender, relacionar-se e agir.
A canção produz um movimento de expansão afetiva. Parte da pergunta, atravessa interpretações dolorosas e alcança uma afirmação coletiva. O ritmo crescente e a repetição intensificam a sensação de potência.
A música pode, assim, ser entendida como composição de afetos alegres. Ao compartilhar a experiência musical, os ouvintes estabelecem vínculos e participam de uma potência coletiva maior do que aquela experimentada isoladamente.
Essa dimensão coletiva impede que a obra seja reduzida a uma filosofia individualista de autoajuda. A vida é cantada em comunidade. A afirmação existencial acontece por meio das vozes, dos encontros e da circulação social da música.
5.6 Frankl e o sentido diante do sofrimento
Embora Viktor Frankl seja frequentemente associado à Psicologia, sua obra também apresenta uma dimensão filosófica existencial. Para Frankl, o sentido não depende da ausência de sofrimento. Mesmo em situações-limite, o sujeito pode encontrar significado na atitude que assume diante do inevitável.
Essa concepção não deve ser utilizada para romantizar o sofrimento ou responsabilizar pessoas por adoecimentos e circunstâncias que ultrapassam seu controle. Encontrar sentido não significa considerar a dor desejável, justa ou necessária.
Na música, o sofrimento não é glorificado. Ele aparece como uma das dimensões possíveis da existência. A resposta afirmativa consiste em não permitir que a dor esgote todos os significados da vida.
A canção preserva a esperança de transformação. Algumas formas de sofrimento devem ser enfrentadas socialmente, e não apenas suportadas individualmente. A vida deveria ser melhor, o que implica reconhecer injustiças e desejar mudanças.
6 A dialética entre sofrimento e esperança
Um dos aspectos mais relevantes de “O Que É, O Que É?” é a coexistência entre sofrimento e esperança. A obra não apresenta esses elementos como mutuamente excludentes.
O indivíduo pode sofrer e, ainda assim, desejar viver. Pode reconhecer a dureza da realidade e conservar projetos. Pode experimentar tristeza sem perder definitivamente a capacidade de amar, criar ou esperar.
Essa dialética afasta a composição de dois extremos. O primeiro é o pessimismo absoluto, segundo o qual a existência seria apenas sofrimento e nenhuma transformação seria possível. O segundo é o otimismo alienado, que ignora conflitos sociais e dores psíquicas em nome de uma positividade obrigatória.
A posição da canção é mais complexa: a vida não é plenamente boa, mas pode ser afirmada e transformada.
A frase que projeta uma vida melhor contém, simultaneamente, crítica e esperança. Se a vida deveria ser melhor, isso significa que a realidade presente possui problemas. Se ela poderá melhorar, significa que a história não está encerrada.
A esperança torna-se, portanto, uma categoria ética e política. Não se trata apenas de sentir-se bem, mas de preservar a capacidade de imaginar outras formas de existência.
7 A dimensão social e política da obra
Gonzaguinha desenvolveu parte significativa de sua produção em diálogo com as desigualdades, as tensões políticas e as experiências populares brasileiras. Mesmo quando aborda temas afetivos e existenciais, sua obra não se separa completamente das condições históricas e sociais.
Em “O Que É, O Que É?”, a pergunta sobre a vida é dirigida a diferentes pessoas. Não existe apenas uma voz autorizada a definir a existência. A experiência popular, a sabedoria cotidiana e a perspectiva infantil são valorizadas.
Esse procedimento descentraliza o conhecimento. A resposta não pertence exclusivamente ao filósofo, ao cientista, ao religioso ou ao intelectual. Ela é construída por pessoas comuns, em suas experiências concretas.
A canção também sugere que a vida não pode ser reduzida à sobrevivência biológica. Viver envolve dignidade, liberdade, alegria, vínculo e possibilidade de realização.
Ao afirmar que a vida deveria ser melhor, a composição permite uma leitura crítica das estruturas sociais que produzem sofrimento evitável. Pobreza, violência, exclusão, preconceito e desigualdade não são fenômenos naturais ou inevitáveis; são condições históricas que podem ser transformadas.
A celebração da vida, desse modo, não conduz necessariamente ao conformismo. Pode alimentar resistência e compromisso com a mudança.
8 A canção e a saúde mental
A mensagem da obra pode ser relacionada à saúde mental, desde que se evitem interpretações simplistas. A afirmação da vida não significa que pessoas em sofrimento psíquico possam superar depressão, ansiedade, transtornos psicóticos ou outras condições apenas por meio do pensamento positivo.
Transtornos mentais envolvem fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Em muitos casos, são necessários acompanhamento profissional, psicoterapia, tratamento médico, suporte familiar e intervenções sociais.
A música não substitui esses cuidados. Contudo, pode exercer funções complementares. Ela pode facilitar a expressão emocional, estimular memórias, favorecer vínculos e oferecer linguagem para experiências difíceis. Pesquisas em diferentes contextos indicam que atividades musicais podem contribuir para conforto, humanização e elaboração de sentidos.
Para uma pessoa em sofrimento, ouvir que a vida possui valor pode ser acolhedor, mas também pode gerar culpa caso ela não consiga experimentar essa beleza. Por isso, a mensagem deve ser compreendida como convite, e não como exigência.
Ninguém deve ser moralmente condenado por não conseguir sentir esperança em determinado momento. Em quadros depressivos graves, por exemplo, a perda de interesse e prazer não representa falta de vontade ou fraqueza moral.
A potência psicológica da canção está em oferecer uma voz simbólica de esperança que pode ser temporariamente emprestada ao sujeito. Mesmo quando ele não consegue afirmar a vida sozinho, pode encontrar na arte uma forma de manter aberta a possibilidade de voltar a desejá-la.
9 Considerações finais
A canção “O Que É, O Que É?”, de Gonzaguinha, constitui uma obra de grande densidade psicológica, filosófica e psicanalítica. Sua aparente simplicidade abriga questões fundamentais sobre a existência, o desejo, a felicidade, o sofrimento, a finitude e a produção de sentido.
Na perspectiva psicológica, a música evidencia a capacidade humana de elaborar experiências por meio de símbolos, construir narrativas e preservar esperança diante das adversidades. A felicidade não é apresentada como ausência permanente de dor, mas como possibilidade de abertura, vitalidade e ligação com o mundo.
Sob a ótica psicanalítica, a pergunta sobre a vida expressa a falta constitutiva do sujeito e o movimento inesgotável do desejo. A obra articula o princípio do prazer e o princípio da realidade, reconhecendo as limitações da existência sem renunciar à satisfação possível. A força de Eros aparece no canto, no amor, na criação e na busca de vínculos. A música atua como sublimação, transformando angústias existenciais em produção artística compartilhada.
A repetição da afirmação da beleza da vida realiza um trabalho simbólico. Não se trata de verdade evidente ou definitivamente conquistada. É uma posição que precisa ser reiterada porque a experiência humana permanece atravessada pelo sofrimento e pela finitude.
A valorização da perspectiva infantil aproxima a obra da noção winnicottiana de criatividade e espontaneidade. A criança simboliza a capacidade de brincar, imaginar e relacionar-se com o mundo sem reduzi-lo inteiramente às exigências da racionalidade adulta.
Filosoficamente, a canção dialoga com o existencialismo ao apresentar a vida como projeto aberto e responsabilidade. Aproxima-se de Heidegger ao reconhecer a temporalidade e a finitude; de Sartre ao enfatizar a escolha; de Espinosa ao mobilizar afetos que aumentam a potência de agir; de Frankl ao sustentar a busca de sentido; e de Nietzsche ao afirmar a existência sem negar sua dimensão trágica.
A principal contribuição da obra talvez esteja em sua recusa de respostas absolutas. Gonzaguinha não define a vida de maneira fechada. Ele reconhece diferentes perspectivas e, diante delas, assume uma posição: embora imperfeita, contraditória e finita, a vida ainda pode ser cantada, desejada e transformada.
A canção permanece atual porque a pergunta que a sustenta nunca é respondida definitivamente. Cada geração e cada indivíduo precisam reconstruir sua própria relação com a existência. Nesse processo, a obra de Gonzaguinha oferece não uma fórmula, mas uma companhia simbólica: uma forma de reconhecer o sofrimento sem entregar a ele a última palavra.
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