Entre A Confiança E A Decepção — Minha História Com As Amizades

Crescer em um ambiente com valores morais sólidos e afeto consistente molda o que a psicologia chama de visão benevolente do outro. Partir do princípio de que todos agem com boa intenção, honestidade e respeito é uma virtude, mas, sem filtros, torna-se uma grande vulnerabilidade. Este ensaio aborda a dor devastadora de ver histórias, dores e fragilidades compartilhadas em confiança sendo utilizadas como armas de ataque e controle.

FILOSOFIA

Fátima Cristina Ferreira Lobo

5/25/20264 min read

woman sitting on dock near body of water
woman sitting on dock near body of water

Desde muito cedo, ainda na infância, eu fui alguém que acreditava.
Acreditava nas pessoas, nas palavras, nos gestos — mas, acima de tudo, acreditava na bondade do ser humano.

Eu cresci em um ambiente onde valores como respeito, honestidade, dignidade e caráter não eram apenas ensinados, mas vividos. Meus pais me deram uma formação moral sólida, firme, coerente. Aprendi que fazer o bem era o caminho. Que ser correto era inegociável. Que não se deve ferir o outro, muito menos por interesse, inveja ou vantagem.

E foi exatamente essa base que moldou quem eu me tornei.

Eu nunca consegui conceber — nem na infância, nem mesmo por muito tempo na vida adulta — que uma pessoa pudesse, conscientemente, fazer mal a outra por inveja ou ganância. Isso simplesmente não fazia sentido dentro da lógica emocional e moral que eu carregava.

Para mim, se alguém sorria, era sincero. Se alguém se aproximava, era por afinidade. Se alguém perguntava sobre a minha vida, era porque se importava. E assim, naturalmente, eu confiava. Talvez até demais.

Sempre tive uma tendência muito forte a me abrir com facilidade. Bastava a pessoa ser simpática, acolhedora, demonstrar um mínimo de interesse — e eu já me sentia à vontade para compartilhar partes importantes da minha história, da minha vida, das minhas fragilidades.

Eu não via isso como risco. Eu via isso como conexão.

Mas, com o tempo, fui descobrindo algo muito difícil de aceitar: nem todo mundo que escuta, escuta com cuidado. Nem todo mundo que se aproxima, se aproxima com boas intenções.

E foi então que vieram as decepções mais dolorosas.

Em alguns momentos da minha vida, aquilo que eu havia confiado — minhas dores, minhas histórias, minhas vulnerabilidades — foi usado contra mim. Em situações de conflito, de afastamento ou até mesmo por motivos que eu nunca compreendi totalmente, pessoas recorreram ao que eu havia dito em confiança… como forma de ataque.

E isso foi devastador.

Porque não era apenas uma traição pontual. Era uma quebra profunda de algo que, para mim, era sagrado: a confiança.

ANÁLISE PSICOLÓGICA DO MEU PERFIL

Do ponto de vista psicológico, o que aparece na minha trajetória não é fraqueza — é estrutura emocional.

Pessoas que crescem em ambientes com valores sólidos, afeto consistente e referências éticas claras tendem a desenvolver o que chamamos de visão benevolente do outro. Ou seja, partem do princípio de que o outro também age com boa intenção.

Além disso, há alguns traços importantes no meu perfil:

  • Alta abertura emocional: facilidade de se expressar, compartilhar sentimentos e experiências pessoais

  • Confiança interpessoal elevada: tendência a acreditar no outro antes de duvidar

  • Empatia desenvolvida: capacidade de se colocar no lugar do outro

  • Busca por conexão genuína: valorização profunda dos vínculos

Essas características são, em essência, qualidades.
Mas, sem filtros ou limites, podem se tornar pontos de vulnerabilidade.

O que aconteceu comigo não foi “erro de personalidade”, mas ausência de proteção emocional adequada diante de pessoas que não operam com os mesmos valores.

TEM RELAÇÃO COM DOENÇAS PSIQUIÁTRICAS?

De forma geral, não.

Confiar, acreditar no outro, ser aberto emocionalmente não é doença psiquiátrica.

Essas características só se tornam clinicamente relevantes quando estão associadas a prejuízos intensos e recorrentes, como:

  • incapacidade total de perceber riscos

  • padrões repetitivos de relações abusivas sem qualquer reflexão

  • sofrimento psíquico grave e persistente

No meu caso — e em muitos casos semelhantes — estamos falando muito mais de um estilo de personalidade do que de um transtorno.

Pode haver, eventualmente, uma ingenuidade emocional aprendida, ligada à forma como fomos educados e ao ambiente em que crescemos.

Mas isso não é patológico. É humano.

POR QUE O SER HUMANO FAZ ISSO? (ANÁLISE PSICOLÓGICA)

Essa talvez seja uma das partes mais difíceis de aceitar.

Nem todo mundo age a partir da ética.

Algumas pessoas:

  • sentem inveja daquilo que não possuem

  • vivem em constante comparação

  • têm dificuldade em lidar com o sucesso, a autenticidade ou a sensibilidade do outro

  • utilizam informações pessoais como forma de controle, defesa ou ataque

Do ponto de vista psicológico, isso pode estar ligado a:

  • insegurança profunda

  • baixa autoestima

  • mecanismos de defesa (como projeção e ataque)

  • imaturidade emocional

Ou seja: muitas vezes, quando alguém usa algo íntimo contra você, isso fala muito mais sobre a estrutura interna dessa pessoa do que sobre você.

ANÁLISE FILOSÓFICA

Filosoficamente, essa questão atravessa séculos de reflexão.

O ser humano sempre foi compreendido como um ser ambíguo.

Capaz do bem — mas também do mal.

Thomas Hobbes defendia que, sem regras e limites, o homem tende ao conflito, à disputa, ao próprio interesse.
Já Jean-Jacques Rousseau acreditava que o ser humano nasce bom, mas é corrompido pela sociedade.

E talvez a verdade esteja justamente no meio:

O ser humano tem potencial para o bem — mas não está imune à inveja, à ganância, ao egoísmo.

Confiar cegamente é ignorar essa complexidade. Desconfiar de todos é negar a possibilidade do bem.

A sabedoria está no equilíbrio.

CONCLUSÃO: ENTRE QUEM EU FUI E QUEM EU ESTOU ME TORNANDO

Hoje, olhando para minha história, eu não vejo ingenuidade como defeito. Eu vejo pureza emocional. Vejo uma base sólida. Vejo valores que continuam me guiando até hoje.

Mas também vejo a necessidade — e a maturidade — de aprender a filtrar.

Continuo acreditando na bondade do ser humano. Mas já não acredito de forma cega.

Aprendi que confiança não se entrega — se constrói. Que nem todo sorriso é acolhimento. E que proteger a própria história também é uma forma de amor-próprio.

Entre a confiança e a decepção…eu não deixei de ser quem sou.

Apenas aprendi a me preservar.


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