A Memória Afetiva e o Poder da Música: Uma Análise Filosófica e Psicológica da Canção “The Old Songs”, interpretada por Barry Manilow

O presente artigo tem como objetivo analisar, sob a perspectiva filosófica e psicológica, a canção “The Old Songs”, interpretada por Barry Manilow. A música, originalmente composta por David Pomeranz e Buddy Kaye, aborda a força evocativa das canções antigas na reconstrução de vínculos afetivos e na reativação de memórias emocionais. A partir de referenciais teóricos da psicologia da memória, da filosofia da linguagem e da estética musical, busca-se compreender como a música atua como mediadora entre passado e presente, possibilitando a ressignificação de experiências emocionais. Conclui-se que a canção evidencia o papel da arte como instrumento de reconciliação subjetiva e reconstrução da identidade afetiva.

MÚSICAS INTERNACIONAIS

Fátima Cristina Ferreira Lobo

6/1/20263 min read

1. Introdução

A música ocupa um papel central na experiência humana, funcionando como veículo de expressão emocional e construção de sentido. A canção “The Old Songs”, gravada por Barry Manilow em 1981, integra o álbum If I Should Love Again e alcançou destaque nas paradas musicais, tornando-se um marco do gênero pop romântico .

A obra propõe uma reflexão sobre o impacto das músicas do passado na reativação de sentimentos e relações interrompidas. Nesse contexto, o presente estudo busca investigar: de que maneira a música pode atuar como catalisadora de memórias afetivas e reconstrução emocional?


2. Fundamentação Teórica

2.1 Memória e emoção na psicologia

Segundo Daniel Kahneman (2012), a memória não é uma reprodução fiel do passado, mas uma reconstrução influenciada pelas emoções. Nesse sentido, a música possui forte capacidade de evocação, pois ativa simultaneamente áreas cognitivas e afetivas do cérebro.

Para Antonio Damasio (2011), as emoções são fundamentais para a tomada de decisões e para a construção da identidade. A música, ao despertar emoções, contribui diretamente para a reorganização da experiência subjetiva.


2.2 Filosofia da memória e do tempo

Na filosofia, Henri Bergson (1999) destaca que a memória não é apenas recordação, mas duração — um fluxo contínuo entre passado e presente. Assim, ao ouvir músicas antigas, o sujeito não apenas lembra, mas revive experiências.

Já Paul Ricoeur (2007) enfatiza que a memória está ligada à identidade narrativa, ou seja, às histórias que contamos sobre nós mesmos. A música, nesse sentido, funciona como um “gatilho narrativo”.

3. Análise da Canção “The Old Songs”

3.1 A música como evocação emocional

A canção apresenta um eu lírico que tenta reconquistar um amor perdido por meio de músicas antigas. A ideia central é que as canções compartilhadas no passado carregam significados emocionais profundos.

Esse fenômeno pode ser explicado pela chamada memória autobiográfica, na qual estímulos sensoriais — como a música — evocam lembranças específicas associadas a experiências pessoais.


3.2 Nostalgia e reconstrução afetiva

A nostalgia, frequentemente interpretada como saudade do passado, aparece na música como uma tentativa de resgate emocional. Para Svetlana Boym (2001), a nostalgia pode ser tanto regressiva quanto reflexiva — e, neste caso, assume caráter reflexivo, pois busca reconstruir o vínculo afetivo.

A canção sugere que o passado não está morto, mas pode ser reativado através da arte.

3.3 Música e linguagem simbólica

A música, enquanto linguagem simbólica, transcende o discurso racional. Conforme Susanne Langer (1953), a arte expressa aquilo que não pode ser plenamente verbalizado.

Assim, “The Old Songs” não apenas fala sobre sentimentos — ela os recria no ouvinte, permitindo uma experiência emocional compartilhada.

4. Discussão

A análise evidencia que a música atua como um elo entre memória, emoção e identidade. Ao utilizar canções do passado como instrumento de reconexão, o eu lírico demonstra que:

  • A música preserva experiências afetivas;

  • A memória emocional pode ser reativada por estímulos sonoros;

  • A arte possui potencial terapêutico e reconciliador.

Nesse sentido, a canção dialoga com práticas contemporâneas da psicologia, como a musicoterapia, que utiliza a música para promover bem-estar emocional.


5. Considerações Finais

A canção “The Old Songs” revela a profunda relação entre música e memória afetiva. Sob a perspectiva filosófica e psicológica, observa-se que a música não apenas recorda o passado, mas o reinterpreta e ressignifica.

Portanto, conclui-se que a arte musical desempenha papel fundamental na reconstrução emocional do indivíduo, funcionando como ponte entre experiências vividas e possibilidades futuras.


Referências Bibliográficas

BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

BOYM, Svetlana. The Future of Nostalgia. New York: Basic Books, 2001.

DAMASIO, Antonio. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

LANGER, Susanne. Feeling and Form. New York: Scribner, 1953.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Unicamp, 2007.

POMERANZ, David; KAYE, Buddy. The Old Songs. 1981.

MANILOW, Barry. If I Should Love Again. Arista Records, 1981


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